O amor de mãe quebra barreiras - A história de Samanta e o combate ao câncer de mama

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1 – Samanta, me conte um pouco sobre você, sua idade, profissão, família e sua história. 

 

Tenho 33 anos, me formei em administração, sou casada e tenho um filho de quase 4 anos. Meus pais se separaram quando eu tinha apenas um ano de vida. Sou filha única deste casamento, mas tenho irmãos por parte de pai e, inclusive, tenho uma relação de muito amor com todos eles.

 

Comecei a namorar meu esposo em 2008, casamos em 2011 e tivemos nosso filho, o Luiz Gustavo, no final de 2013. Foi a maior felicidade de nossas vidas.

 

2- Como você descobriu que estava grávida do Luiz Gustavo? E a gestação, foi tranquila?

 

Comecei a desconfiar da gravidez devido ao meu peito estar muito cheio e com um líquido, o qual chegava a sujar o sutiã. Corri na internet para pesquisar, pensei mil coisas e, logo em seguida, já me vi como mãe até porque havia feito a ultrassonografia das mamas há um mês e estava tudo okay.

 

Fiz as contas e notei que minha menstruação estava atrasada um dia. Eu sempre fui muito regulada, mas como não queria criar expectativa pra ninguém, pedi para Deus me dar uma luz. Tive um sonho, no qual duas amigas estavam grávidas de meninos. E veja que engraçado: as duas tiveram seus filhos em dezembro, assim como eu.

 

Corri na farmácia, fiz um teste de gravidez e esperei até as 17 horas para contar para o meu esposo. Comprei um sapatinho de bebê para ele abrir. Foi muita felicidade!

 

Minha gravidez foi tranquila, sem enjoos, tinha muito sono (dormia bastante), desejos loucos por coisas geladas, ácidas e batata frita.

 

3 – Qual foi a sua relação com a amamentação? O que significou para você poder amamentar o seu filho?

 

Meu pensamento sempre foi o de dar conta de amamentá-lo a fim de dar o melhor a ele. E também havia uma preocupação de não ter câncer de mama ou algo que me impedisse de seguir com este meu desejo.

 

Amamentar meu filho era a coisa mais gostosa do mundo. Era ver aquela relação de troca de olhares e carinho o tempo inteiro. Uma conexão sem fim.  

 

4 – Quais foram as dificuldades enfrentadas para amamentá-lo?

 

Minha reação foi a de não dar contar e isso prejudicou a descida do meu leite de forma tranquila. Eu produzi o colostro desde as primeiras semanas de gestação.

 

Fui em dois pediatras e ambos não me tocaram/demonstraram como eu deveria amamentar meu filho. Confesso que isso foi muito doído para mim. Como podia aquele peito cheio de leite, eu louca para amamentar e não dava certo? Na opinião deles, a fórmula era a opção mais viável e também mais certa.

 

Após um mês de vida do Luiz Gustavo, descobri o banco de leite da minha cidade. Foi lá que consultaram meu filho muito bem e também aprendi a como tirar o leite, a ter mais paciência, enfim, ter mais jeito com amamentação. Sai de lá muita satisfeita e meu filho passou a mamar apenas em mim. Demanda livre, ele desmamou aos três meses, num dia à noite.

 

5 – Como foi a descoberta do câncer de mama? E o que significou para você parar de amamentar?

 

Eu senti uma dor muito forte no meu peito no 15º dia após o nascimento do meu filho. Eu estava em dia com os meus exames, então fiquei despreocupada e deixei para atualizar os exames em março do próximo ano. Quando meu filho completou três meses, repeti o exame. Após o resultado, meu médico foi enfático: “Samanta, vamos fazer biopsia”. 

 

A primeira pergunta que fiz foi sobre ter que parar de amamentar meu filho. O médico me respondeu que por um dia sim, eu pararia de amamentá-lo. Aquela resposta foi a morte para mim. Procurei outros médicos, fiz outro ultrassom e todos me pediram para interromper a amamentação.

 

Numa manhã, quando eu estava amamentando e assistindo a um programa de TV sobre câncer, senti uma dor forte embaixo do braço e me veio um sentimento ruim, parece que ali eu já percebia que tinha algo estranho. Me lembro de ter dito ao meu esposo: “Amor, não me deixe ficar longe do nosso filho, não quero perder um lance de sua vida, quero estar junto com ele.”  E a gente nem tinha o diagnóstico, parece que eu pressentia que aquilo não estava certo”.

 

Enfim, novamente, procurei por outro médico, o qual olhou os exames e expressou preocupação. Eu pude ver na expressão dele que havia algo ruim ali.

 

Parei de amamentar no 7º mês de vida do meu filho. Tomei remédio para o leite secar, dormi enfaixada. Na outra semana, quando meu peito estava mais vazio, fiz o exame. No dia seguinte saiu o resultado.

 

Quando voltei a trabalhar, meu filho estava com cinco meses de idade. Inseria a mamadeira com meu leite, tirava e deixava para tomar em casa. Ele ficou aos cuidados de uma pessoa muito boa. Quando eu estava em casa, o peito ficava em livre demanda. Quando ele tinha quase oito meses, conversei com ele e expliquei minha situação. E foi incrível, pois a partir daquele dia, mesmo sendo um bebê, ele teve a ciência do que estava acontecendo e desmamou tranquilamente.

 

A família inteira ficou sem chão, pois não havia nenhum diagnóstico anterior na família. Não sabíamos o que fazer, para onde correr. Tudo mudou. Os planos mudaram. Mas aprendi e aprendo a cada dia, tudo acontece no tempo de Deus e era isso que ele quis explicar para a gente. E teve algo que minha madrinha me disse que vale para todos nós: “jamais pergunte o porquê, e sim o para que irei passar por isso”.

 

6 - Como foi o tratamento e a cura do câncer de mama?

 

O tratamento foi de muita fé, de muitas mudanças de rotinas, de muitos médicos. De muitos enjoos em algumas sessões de quimioterapias, em outras passava ilesa, nem parecia que tinha feito. Por muitas vezes, na semana que eu realizava a quimio, a vida parava, como se eu estivesse com uma virosa. Tinha disposição para fazer poucas coisas com meu filho. Passado o efeito, minha rotina voltava ao normal e eu sabia que havia pessoas me esperando para aproveitar a vida.

 

Passei por dois tratamentos: um devido à descoberta (julho de 2014) e outro por ter ficado um resíduo no mamilo (julho de 2015). Ambos os tratamentos foram intensos. Tirei as duas mamas, uma foi radical e a outra prevenção.

 

Meu cabelo caiu e meu maior medo era o de que meu filho não me reconhecesse. Mas isso não aconteceu. Chegava a ser engraçado, quando ele percebia que eu colocava o lenço ou o chapéu, ele sabia que iríamos sair de casa.  

 

A cura veio da fé, da esperança e da vontade de viver para criar meu filho. Faz dois anos que fiz minha última sessão de quimioterapia e um ano sem imunoterapia.

 

7 - Em algum momento você se sentiu sozinha? Você sentiu algum tipo de julgamento, preconceito? Qual foi o papel da família em todo esse processo?

 

Me senti muito sozinha e sem apoio na fase inicial da amamentação. Hoje em dia, não digo todos, mas muitos médicos lhe ‘empurram’ fórmulas.

 

Mas ainda bem que encontrei um médico que me ajudou muito e segundo ele “bezerro só mama na vaca e quando ele começa a comer, não quer mais saber de leite”. E assim aconteceu com meu filho, mamou a fórmula a base de leite de vaca, e aos poucos, quando iniciou a ingestão de papinhas, não quis mais saber da fórmula, pois não gostava.

 

No processo da doença jamais estive sozinha. Contei muito com o apoio do meu esposo, filho, mãe, pai, irmãos, avôs, família, amigos, amigos de amigos. O tempo inteiro todos orando. A minha vontade de viver era enorme, assim como a força que recebia.  

 

Sobre o preconceito: sim, da morte. Todo mundo vê o câncer como uma morte lenta e sem cura. Todo mundo lhe para e pergunta sobre o cabelo, como está o tratamento e as vezes para fazer comentários do tipo: “nossa, minha vizinha estava com câncer e morreu”. Era engraçado que ninguém falava “nossa, minha vizinha teve câncer, está bem e curada”.

 

A família é a parte mais importante nesse momento. Ah, e pessoas positivas também.

 

8 – Tendo a oportunidade de voltar no tempo, o que você faria diferente em relação a amamentação?

 

Teria procurado o banco de leite mais cedo. Não teria dado fórmula no hospital, teria tido mais paciência, afinal, os bebês mamam no tempo deles.

 

Se eu não tivesse tido o câncer, a amamentação teria sido até o dia/hora que meu filho quisesse.

 

9 – Que recado você deixaria para quem está passando por um câncer de mama ou para as mães que estão passando pelo processo de amamentação?

 

Não ouvimos muitas pessoas comentando sobre o que passou pelo fato de ser dolorido, ser uma rotina cansativa de consultas em muitos médicos, realização de muitos exames e tal. Sim, é cansativo, mas temos que mudar o sentido da vida para uma pessoa que acabou de ser diagnosticada com câncer. Temos que mostrar que existem pessoas que estão muito bem, que estão curadas, vivas e que a doença está sob controle. Há tratamento. E há vida antes, durante e após o tratamento. Confie!

 

Para as mães com câncer de mama em período de amamentação, o conjunto que ajuda você a conseguir tudo é:  fé, paciência e esperança, afinal, tudo passa.

 

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